Skincare na gravidez: pode continuar usando os produtos normalmente?


Muitas pacientes reclamam de acne, crescimento indesejado de pelos e outros problemas de pele que só se desenvolveram depois que engravidaram. Essas questões estão diretamente ligadas às mudanças hormonais desencadeadas pela gestação.


Fato é que, com isso, os produtos usados ​​para tratar esses tipos de problemas de pele devem ser seguros para uso na gravidez. E essa é uma grande dúvida que sempre surge no consultório: “quais produtos eu posso usar, quais tratamentos posso realizar?”. Para esclarecer tais dúvidas resolvi trazer dados de um estudo que analisou as principais substâncias utilizadas para tratamento tópico da acne, depilação e tratamento estético de cabelos.


ACNE

As opções de tratamento tópico para acne geralmente incluem retinóides, antibacterianos e agentes como peróxido de benzoíla e ácido salicílico. Outros agentes usados ​​na rotina de skincare incluem: hidroquinona encontrada em agentes clareadores da pele; avobenzona, octinoxate e oxibenzona encontrados em filtros solares; e dihidroxiacetona encontrada em agentes autobronzeadores. Entenda o que o estudo aponta sobre cada um deles:


*Retinóides tópicos*

A absorção desse produto pela pele é muito baixa, no entanto, o papel dos retinóides tópicos nesses casos permanece controverso.


Isso porque estudos são inconclusivos e mostram situações contraditórias. por exemplo: existem na literatura 4 relatos de casos publicados de defeitos congênitos associados ao uso de tretinoína tópica, que são consistentes com embriopatia retinóide. Por outro lado, 2 estudos prospectivos que examinaram o uso da substância durante o primeiro trimestre da gravidez (com 96 e 106 mulheres) não encontraram um risco aumentado de malformações maiores ou evidência de embriopatia retinóide.


Ainda assim, até que dados em coortes maiores sejam coletados, as mulheres não devem ser encorajadas a usar retinóides tópicos durante a gravidez.


*Antibacterianos tópicos*

As principais substância usadas são a clindamicina e a eritromicina (uso combinado ou isolado), o artigo consultado para elaboração deste conteúdo relata que ambas se demonstraram seguram de acordo com a revisão literária.


*Peróxido de benzoíla*

Quando o peróxido de benzoíla é aplicado topicamente, apenas 5% é absorvido pela pele e, em seguida, é completamente metabolizado em ácido benzóico na pele e excretado inalterado na urina. A respeito de seu risco para mulheres grávidas, não há estudos; no entanto, não são esperados efeitos sistêmicos em uma mulher grávida e em seu filho e, portanto, o uso deste produto durante a gravidez não seria motivo de preocupação.


*Ácido salicílico*

O ácido salicílico tópico é um ingrediente em uma série de produtos cosméticos e para acne e a absorção sistêmica varia. Uma série de grandes estudos publicados, nos quais os pesquisadores examinaram os resultados de mulheres que tomaram ácido acetilsalicílico em baixas doses durante a gravidez, não demonstram  aumento no risco basal de eventos adversos, como malformações maiores, parto prematuro ou baixo peso ao nascer.


Nenhum estudo foi realizado na gravidez sobre o uso tópico, no entanto, como uma proporção relativamente pequena é absorvida pela pele, é improvável que represente qualquer risco para o desenvolvimento do bebê.


*Ácido glicólico*

O ácido glicólico é um alfa-hidroxiácido encontrado em muitos cosméticos usados ​​para tratar a acne. Vários estudos em animais demonstraram efeitos reprodutivos adversos quando o ácido glicólico foi administrado em altas doses. Mas o que há que se destacar é que nesses estudos as doses administradas eram muito maiores do que aquelas usadas em produtos cosméticos tópicos em humanos.


Por outro lado, não foram realizados estudos examinando o uso de ácido glicólico na gravidez humana. Mas, ainda assim, o uso de ácido glicólico na pele durante a gravidez não deve ser motivo de preocupação, pois espera-se que apenas uma quantidade mínima seja absorvida sistemicamente.


*Agentes clareadores da pele*

A hidroquinona é usada clinicamente como um agente despigmentante tópico para doenças como cloasma e melasma, e é usada cosmeticamente como agente de clareamento da pele. Estima-se que 35% a 45% são absorvidos sistemicamente após o uso tópico em humanos.


Em termos científicos, um único estudo foi publicado envolvendo o uso de hidroquinona durante a gravidez sem aumento de eventos adversos; no entanto, o tamanho da amostra de mulheres grávidas foi pequeno. Com base nos dados disponíveis, o uso de hidroquinona durante a gravidez não parece estar associado a um risco aumentado de malformações maiores ou outros efeitos adversos. No entanto, devido à absorção substancial em comparação com outros produtos, é melhor minimizar a exposição até que outros estudos possam confirmar a segurança no uso de tal substância.


*Protetores solares*

Bom, esse aqui nem preciso dizer que além de seguro é necessário, né? Os filtros solares são comumente usados ​​para proteger a pele dos raios nocivos do sol e têm sido usados ​​na gravidez para tratar ou prevenir o melasma. Testes em animais mostram baixa toxicidade e absorção cutânea ou sistêmica muito limitada. Eventos adversos não foram relatados.


CABELOS

Agentes tópicos comuns usados ​​para remover ou reduzir sua aparência incluem sais de ácido tioglicólico e hidróxido de sódio, cálcio e potássio encontrados em cremes depilatórios ou peróxido de hidrogênio encontrado em cremes clareadores de cabelo.


*Cremes depilatórios e descolorantes*

Ao abordar questões de remoção de cabelo, ou reduzir a aparência do cabelo, vários agentes tópicos estão disponíveis, como cremes depilatórios e clareadores. De acordo com as diretrizes da Health Canada, o ácido tioglicólico é permitido em produtos depilatórios em concentrações iguais ou inferiores a 5% com um pH de 7 a 12,7.


Hidróxido de sódio, cálcio e potássio, que também são encontrados em cremes depilatórios, dissociam-se em íons sódio, cálcio, potássio e hidróxido. Esses íons são encontrados em abundância no corpo, e a quantidade desses produtos químicos encontrados em produtos de consumo que entram em contato com a pele seria insignificante, especialmente em comparação com a ingestão diária média na dieta. Além disso, embora possam permear a pele, a absorção sistêmica desses íons é mínima e, portanto, eles não aumentam os níveis séricos e não seriam considerados um problema para uso durante a gravidez.


Em um estudo in vitro envolvendo pele humana, o peróxido de hidrogênio foi detectado na derme somente após a aplicação de altas concentrações de peróxido de hidrogênio por várias horas. No entanto, como os produtos cosméticos, como os cremes para descolorir o cabelo, contêm baixas concentrações de peróxido de hidrogênio, é improvável que quantidades substanciais sejam absorvidas após a aplicação tópica. Além disso, uma vez absorvido, o peróxido de hidrogênio é rapidamente metabolizado.


Resumindo: o uso desses produtos durante a gravidez não deve ser uma preocupação quando feito com moderação.


O QUE O ESTUDO DIZ SOBRE O USO DE TODAS ESSAS SUBSTÂNCIAS?

O que a pesquisa conclui é que, com exceção da hidroquinona, que tem uma taxa de absorção sistêmica relativamente alta, e da tretinoína, para as quais as evidências são controversas, todas os produtos avaliados atuam localmente e, portanto, produzem níveis sistêmicos mínimos.


Fonte: Bozzo, Pina et al. “Safety of skin care products during pregnancy.” Canadian family physician Medecin de famille canadien vol. 57,6 (2011): 665-7.

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